Cansado e nervoso, Edgar retirou-se do salão, encerrando
mais um dia fatídico de acordos de poder.
Com passos rápidos e decididos caminha em direção aos
seus aposentos, esperando encontrar o seu copo de Xerez no lugar de sempre. Uma
rotina da qual não se cansa.
‘Sentar-se na poltrona com o copo na mão, as janelas
abertas permitindo a entrada de uma brisa fresca, e por fim, fechar os olhos e descansar
a mente...’
Era nisso que seus pensamentos fixavam-se no momento,
enquanto percorria os grandes corredores.
Sua amante deveria estar no lugar de sempre: ao redor do
lago, em baixo da sombra de uma bela arvore acompanhada de alguma servente para
que pudesse ser abanada, enquanto degustava de algumas frutas saborosas e...
“- Eu preciso de um pouco mais de atenção, sinto-me
esquecida por ele, sempre envolvido em assuntos de negócios, há muito tempo não
sei o que é passar o dia com o meu Senhor, a sós”
“- Minha Senhora, se me permite perguntar, ele não a
procura mais, durante a noite?”
“- Sim Piccolo, ele ainda me procura a noite, mas eu
preciso de um pouco mais do que um contato carnal... sinto falta da época em
que corríamos pelos gramados, nos molhávamos no riacho, sinto falta das coisas
simples.”
“- A Senhora chegou a conversar com ele sobre isso?”
“- De forma alguma! Não quero incomodá-lo, muito menos
chatea-lo com minhas vontades tolas.”
Edgar havia parado, suas costas estavam escoradas na
parede rochosa, enquanto forçava-se a escutar a conversa vinda de não muito
longe dali.
Seus pensamentos vagavam entre passado e presente,
enquanto ouvia Elizabeth desabafar com Piccolo, um dos serventes mais próximos
a ela.
Sempre foi uma mulher sem preconceitos, de gostos simples,
algo do qual admirava.
Edgar sentiu o coração apertar enquanto sua mente era
invadida por lembranças.
Muitas coisas haviam mudado desde que assumiu o seu posto.
Uma delas era sua vida com Elizabeth.
Agora eram mais maduros, rodeados de compromissos, e a frequência
com a qual ficavam a sós era cada vez menor.
A verdade é que também sentia falta de tudo que vivera um
dia.
Em seus tempos de liberdade, cometera muitas insanidades,
vivendo intensamente cada momento.
Um libertino nato, acostumado a conquistar todas as mulheres que desejou, e eis que do dia para a noite, se vê enredado pela resistência de Elizabeth.‘Uma jovem rica, de gostos simples, e perturbadoramente linda.’
Era assim que a descrevia.

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